Aposto que você não sabia que o carvão é a lenda do
eucalipto queimado em fornos chamados "rabos quentes", sabia? E, se
não sabia disso, também não deve saber que rabo´quente é uma
espécie de inglu(já viu como é a casa do esquimó)?, feito de tijolo
e barro, que arde e estala com o fogo aceso durante três
dias.
Pois é. Só que, para fazer o eucalipto virar
carvão, muitas crianças têm que trabalhar junto com os pais. Quem
contou e até mostrou tudo isso para a minha professora foi a
Luciane, uma menina de 15 anos, que vive numa fazenda em Água Clara
(no Mato Grosso do Sul). Ela tem mais dois irmãos adolescentes e
duas irmãs pequenas. Todos trabalham com o pai numa carvoaria.
Escute só o que mais ela falou:
" o médico me proibiu de mexer com fumaça pois já
tive pneumonia. Mas meu pai não aguenta trabalhar
sozinho. Desde os 7 anos eu ajudo ele. Comecei fazendo porta
de forno, depois aprendi de tudo. Tem de transportar a lenha, botar
fogo, esperar esfriar, e retirar o carvão. Tem tanta coisa pra
se fazer numa carvoaria que, de noite, a gente dorme me
pé".
Agora, pare um pouco e pense como deve ser horrível
a gente não poder deitar em uma cama macia, cheirosa e quentinha,
ainda mais quando está caindo de cansado. Pois é .... Esta
histporia dos filhos do carvão só tem fumaça e tristeza. Se eu
fosse pintar, só usaria o lápis cinza. E o preto também, claro, pra
pintar o carvão e o "gato".
Sabe o que é esse gato preto entre aspas? É o
empreiteiro, o homem que contrata os carvoejadores e depois leva
todos para morar em barracas, dentro das florestas onde estão os
eucaliptos que vão virar carvão.
É ali, no meio da fumça e longe da cidade, que
famílias como a de Luciene vivem. E não é só em Água Clara. A Dona
Catarina disse que também em Minas Gerais, na Bahia e no
Pará.
Esta história cinza-triste me fez lembrar de
amarelinha. É que minha mãe sempre me dá um pedaço de carvão quando
eu quero riscar uma amarelinha na calçada. é melhor que giz, porque
o preto aparece mais. Será que essas crianças já brincaram alguma
vez de amarelhinha?
AZEVEDO, jô.
Comentários